Em entrevista à Rádio Jovem Pan News, Simon Teixeira Costa, membro do Grupo Técnico de Trabalho de Cannabis do CRF-GO, abordou regulamentação, acesso, prescrição e cuidados com produtos à base da planta
O uso medicinal da cannabis vem ganhando espaço no Brasil e, junto com o avanço da regulamentação, ainda surgem dúvidas sobre a fabricação, a prescrição, a aquisição e as indicações terapêuticas dos produtos. Em entrevista à Rádio Jovem Pan News, Simon Teixeira Costa, membro do Grupo Técnico de Trabalho (GTT) de Cannabis do Conselho Regional de Farmácia de Goiás (CRF-GO), esclareceu alguns dos principais pontos relacionados ao tema.
Segundo Simon, a importação de produtos à base de cannabis é autorizada no Brasil desde aproximadamente 2016. Já a primeira regulamentação que permitiu a fabricação desses produtos no país ocorreu em 2019. Desde então, novas normas passaram a contemplar a fabricação nacional, a pesquisa, a produção e o cultivo da planta em território brasileiro.
Produtos à base de cannabis
Durante a entrevista, Simon destacou que o uso medicinal da cannabis não deve ser confundido com o consumo da planta. Os produtos destinados à terapia passam por processos farmacêuticos, incluindo extração e controle de qualidade.
A apresentação mais comum é líquida, com o extrato da cannabis diluído em veículos oleosos, como o MCT. As regulamentações também passaram a contemplar produtos de uso dermatológico, como cremes e pomadas, destinados ao tratamento de doenças de pele.
Entre as principais aplicações citadas estão o tratamento da epilepsia e de dores crônicas, especialmente dores neuropáticas. A fibromialgia também foi mencionada como uma condição na qual alguns pacientes podem se beneficiar desse tipo de tratamento.
O entrevistado também abordou o uso de produtos à base de CBD como auxiliar no tratamento da insônia, ressaltando que, para essa finalidade, o nível de evidência científica ainda é limitado. No caso do Alzheimer, explicou que a cannabis não é utilizada para tratar a doença em si, mas pode auxiliar no manejo de efeitos associados à sua evolução, como a agitação.
Prescrição e acesso
De acordo com Simon, a prescrição de produtos à base de cannabis é autorizada no Brasil para médicos e dentistas. O especialista ressalta a importância de buscar profissionais que conheçam o sistema endocanabinoide e possam avaliar individualmente o paciente, definindo a concentração e a dose adequadas.
Os produtos já podem ser encontrados em farmácias e drogarias. As farmácias de manipulação também foram autorizadas a produzir preparações utilizando CBD. A aquisição, entretanto, depende de prescrição e segue regras específicas de controle.
Simon também chamou a atenção para a necessidade de adquirir os produtos por canais regulares. Segundo ele, o profissional responsável pela prescrição deve orientar o paciente sobre a marca e o local de aquisição. A recomendação é buscar produtos regularizados ou associações de pacientes habilitadas a fornecê-los.
Uso exige acompanhamento profissional
Assim como ocorre com outros medicamentos, os produtos à base de cannabis podem apresentar efeitos adversos. Entre os exemplos mencionados na entrevista estão episódios de diarreia nos primeiros dias de tratamento e a necessidade de atenção em atividades que envolvam o controle de máquinas.
Por isso, o acompanhamento profissional é fundamental para avaliar a resposta ao tratamento e realizar os ajustes necessários.
A entrevista também abordou o preconceito que ainda existe em relação ao uso medicinal da cannabis. Simon destacou que a busca por informação e por profissionais habilitados é importante para que o paciente compreenda que, dentro das normas estabelecidas, trata-se de uma terapia que requer os mesmos cuidados de outros tratamentos medicamentosos.
Cultivo exige controle de qualidade
Outro tema discutido foi o cultivo da cannabis para fins medicinais. Segundo Simon, existem pacientes que realizam o cultivo doméstico por meio de habeas corpus preventivo. Já o cultivo autorizado para produção medicinal exige controles rigorosos, incluindo análises e cuidados com a qualidade.
Uma das características da planta é a capacidade de absorver substâncias presentes no solo, inclusive metais pesados. Por isso, as condições do local de cultivo precisam ser cuidadosamente controladas para evitar contaminações.
O ciclo de cultivo também demanda tempo. Conforme explicado pelo integrante do GTT de Cannabis do CRF-GO, da muda até a colheita são necessários aproximadamente quatro a seis meses.
A participação de profissionais da área da saúde no debate sobre cannabis medicinal é importante diante da expansão do acesso aos produtos e da necessidade de orientação qualificada. Nesse contexto, o GTT de Cannabis do CRF-GO contribui para a discussão técnica sobre o tema e para a disseminação de informações relacionadas ao uso medicinal da cannabis.
A entrevista concedida por Simon Teixeira Costa à Rádio Jovem Pan News reforça a importância da informação, da regulamentação e do acompanhamento profissional para o uso adequado dos produtos à base de cannabis.

