Estudos indicam que, para dor aguda, aumentar a dose de 400 mg para 600 mg não proporciona ganho analgésico significativo e pode ampliar a exposição aos efeitos adversos
Na hora de aliviar uma dor, é comum associar uma dose maior a um efeito mais intenso. No caso do ibuprofeno, porém, essa lógica nem sempre se aplica. Evidências científicas indicam que, em situações de dor aguda, doses acima de 400 mg apresentam ganho analgésico limitado.
O fenômeno é conhecido como teto analgésico. O ibuprofeno é um anti-inflamatório não esteroidal (AINE) que reduz a produção de prostaglandinas, substâncias envolvidas nos processos de inflamação e dor. A partir de determinada dose, aumentar a quantidade do medicamento não significa necessariamente ampliar o efeito contra a dor, embora aumente a exposição do organismo à substância.
O que mostram os estudos?
Uma revisão da Cochrane analisou 72 estudos randomizados, envolvendo 9.186 adultos com dor moderada a intensa após procedimentos cirúrgicos, principalmente extrações de terceiros molares.
Na comparação entre as doses, não foi identificada diferença estatisticamente significativa no alívio proporcionado por 400 mg e 600 mg de ibuprofeno.
Outro estudo, publicado em 2021 no European Journal of Clinical Pharmacology, avaliou pacientes submetidos à extração de terceiros molares e comparou doses de 400, 600 e 800 mg. Os pesquisadores concluíram que doses superiores a 400 mg apresentaram ganho analgésico limitado para a dor aguda.
Isso não significa, entretanto, que a apresentação de 600 mg não tenha indicação.
Por que existe ibuprofeno de 600 mg?
As diferentes apresentações atendem a situações clínicas e regimes terapêuticos distintos. Enquanto doses menores podem ser utilizadas no manejo de dores agudas comuns, doses maiores podem ser prescritas pelo médico em condições nas quais o efeito anti-inflamatório também é necessário.
A escolha considera o diagnóstico, o tempo de tratamento e as características de cada paciente. Histórico de úlcera, alterações renais ou cardiovasculares, hipertensão, idade avançada e uso de determinados medicamentos são alguns dos fatores que exigem maior cautela.
A recomendação de segurança é utilizar a menor dose eficaz pelo menor período necessário.
Dose maior também aumenta os riscos
O aumento da dose eleva a exposição ao ibuprofeno e, consequentemente, pode ampliar a possibilidade de efeitos adversos, principalmente gastrointestinais, renais e cardiovasculares.
Em 2015, uma avaliação da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) apontou que doses elevadas, especialmente a partir de 2.400 mg ao dia, podem estar associadas a um pequeno aumento do risco de eventos cardiovasculares.
Por isso, escolher uma apresentação de maior dosagem por conta própria não é uma estratégia para obter alívio mais rápido ou mais intenso.
O que dizem as bulas brasileiras?
As apresentações também possuem orientações diferentes. Para o ibuprofeno de 400 mg, a bula estabelece limite de 1.200 mg em 24 horas para uso sem orientação médica, com máximo de 400 mg por tomada.
Já o regime que pode chegar a doses diárias mais elevadas aparece na bula da apresentação de 600 mg, cuja utilização deve seguir prescrição e avaliação profissional.
A existência das duas concentrações, portanto, não significa que uma seja simplesmente uma versão “mais forte” da outra. Elas podem fazer parte de estratégias terapêuticas diferentes.
O uso seguro do ibuprofeno depende da indicação correta, da dose, do intervalo entre as administrações, do tempo de tratamento e das condições de saúde do paciente. Se a dor persistir ou estiver associada a outros sintomas, é importante buscar avaliação profissional em vez de simplesmente aumentar a dose do medicamento.

