Pesquisa aponta alta frequência de zolpidem, clonazepam e outros fármacos entre pessoas com insônia e chama atenção para dependência, automedicação e alternativas de tratamento
A dificuldade para dormir atinge uma parcela expressiva dos brasileiros. Dados do Vigitel de 2024 indicam que 31,7% dos adultos das capitais e do Distrito Federal apresentaram sintomas de insônia, percentual que chegou a 36,2% entre as mulheres e 26,2% entre os homens.
Nesse cenário, um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostrou a frequência com que medicamentos são utilizados para tentar resolver o problema.
Entre 1.158 participantes, 60% relataram o uso de medicações para dormir. Os hipnóticos, como o zolpidem, foram citados por 44%, enquanto os benzodiazepínicos, grupo que inclui clonazepam, alprazolam e diazepam, apareceram em 37,9% dos relatos.
Publicado na revista Sleep Science, o trabalho avaliou voluntários interessados em participar de um ensaio clínico sobre tratamento psicológico da insônia e, por isso, não representa necessariamente o comportamento de toda a população brasileira.
Zolpidem lidera relatos
O zolpidem foi a substância mais frequente no levantamento, especialmente entre os usuários contínuos. Trazodona, mirtazapina, pregabalina e quetiapina também apareceram nesse grupo.
O zolpidem é um hipnótico eficaz e indicado para situações específicas, principalmente para dificuldade de iniciar o sono. O alerta está relacionado ao uso prolongado, que pode favorecer tolerância, dependência, insônia de rebote após a suspensão e comportamentos anormais durante o sono.
Segundo a pesquisadora Renatha El Rafihi-Ferreira, uma das autoras do estudo, a diretriz brasileira recomenda que o tratamento não ultrapasse quatro semanas e, sempre que possível, seja realizado de forma intermitente ou sob demanda. Para pacientes que já fazem uso contínuo, a interrupção não deve ocorrer de maneira abrupta, e o desmame precisa ser supervisionado.
Os benzodiazepínicos também exigem cautela devido aos riscos associados ao uso continuado. Em idosos, tanto essa classe quanto as chamadas drogas Z estão relacionadas ao aumento do risco de quedas.
Consumo elevado levou a mudanças nas regras
Estimativas da Anvisa mostram que as vendas de zolpidem passaram de 13,1 milhões de caixas em 2018 para 21,9 milhões em 2022, um crescimento de aproximadamente 67%.
Diante da expansão do consumo e dos relatos de eventos adversos, o controle da substância foi ampliado. Desde agosto de 2024, todas as apresentações de zolpidem passaram a exigir Notificação de Receita B, a chamada receita azul, independentemente da concentração.
Após a mudança, as vendas no mercado regular caíram de quase 22 milhões de caixas em 2023 para 15,98 milhões em 2024, segundo dados da Anvisa.
Automedicação também preocupa
O levantamento identificou ainda o uso expressivo de medicamentos isentos de prescrição, mencionados por 39% dos participantes. Entre eles estão alguns anti-histamínicos e relaxantes musculares utilizados pelo efeito sedativo.
A facilidade de acesso pode estimular a automedicação e a percepção equivocada de que esses produtos não apresentam riscos. Nesse contexto, o farmacêutico tem papel importante na orientação sobre o uso seguro, na identificação de situações de uso inadequado e no encaminhamento do paciente quando necessário.
Insônia crônica tem tratamento
Uma noite mal dormida isoladamente não caracteriza insônia crônica. O diagnóstico considera dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou despertar precocemente, com ocorrência de pelo menos três vezes por semana durante três meses ou mais e repercussões durante o dia, como fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração.
As causas podem envolver predisposição individual, estresse, mudanças na rotina e outras condições de saúde. Alguns comportamentos adotados para compensar noites ruins, como permanecer mais tempo na cama ou cochilar durante o dia, também podem contribuir para a manutenção do problema.
Para a insônia crônica, especialistas apontam a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) como abordagem de primeira linha. Diferentemente de orientações isoladas sobre higiene do sono, a terapia trabalha hábitos, horários, comportamentos e pensamentos relacionados ao ato de dormir.
A melatonina, apesar de bastante popular, também não é indicada de forma geral para tratar insônia crônica em adultos. Sua principal atuação está relacionada à regulação do ritmo circadiano, podendo ser utilizada em situações específicas, como alterações do relógio biológico.
O tratamento adequado depende da identificação das causas e das características de cada paciente. Medicamentos podem ser indicados em determinados casos, mas não devem substituir uma avaliação clínica completa nem ser utilizados por conta própria.
Para quem já faz uso contínuo de medicamentos para dormir, a recomendação é não aumentar doses, associar substâncias ou interromper o tratamento sem orientação de um profissional habilitado.

