Pesquisa publicada no BMJ aponta 24 possíveis cascatas de prescrição e reforça a importância da revisão periódica dos medicamentos utilizados por pessoas idosas
Um estudo publicado no periódico científico BMJ chama a atenção para um fenômeno que pode ocorrer durante o tratamento de pessoas idosas: as chamadas cascatas de prescrição potencialmente inadequadas.
O problema acontece quando um efeito adverso causado por determinado medicamento é interpretado como um novo problema de saúde. Como consequência, pode ser prescrito outro medicamento para tratar o sintoma, sem que a possibilidade de ele estar relacionado ao tratamento inicial seja devidamente considerada.
A situação pode se tornar ainda mais complexa quando o segundo medicamento provoca novos efeitos adversos e leva à inclusão de outros fármacos no tratamento.
Estudo identificou 24 possíveis cascatas
A pesquisa reuniu especialistas em farmacologia e geriatria de diferentes países e partiu de uma lista de 65 possíveis cascatas de prescrição previamente identificadas pelos pesquisadores.
Para a análise, foram considerados fatores como a frequência de utilização do medicamento inicial, a frequência com que ele era seguido pela prescrição de um segundo fármaco e a consistência da relação entre os medicamentos.
A partir desses critérios, os pesquisadores identificaram 24 cascatas de prescrição mais frequentes na população estudada e com potencial de causar danos.
Entre os exemplos está o uso de anti-inflamatórios não esteroides, que podem estar associados ao aumento da pressão arterial. Em determinadas situações, essa alteração pode ser interpretada como um novo diagnóstico de hipertensão e resultar na prescrição de um anti-hipertensivo, em vez da investigação da possível relação com o medicamento inicialmente utilizado.
O estudo também analisou sequências envolvendo medicamentos como estatinas e suplementos de ferro.
Polifarmácia exige atenção redobrada
Os idosos estão entre os grupos que podem apresentar maior exposição a esse tipo de situação devido à maior prevalência de doenças crônicas e ao uso simultâneo de vários medicamentos.
Quanto maior o número de medicamentos utilizados, mais desafiador pode ser identificar a origem de um novo sintoma ou alteração clínica.
Para Paula Rochon, professora de medicina da Universidade de Toronto e diretora do Centro de Saúde de Mulheres Maduras do Sinai Health, conhecer o histórico farmacológico do paciente é fundamental.
“Saber que medicamentos a pessoa toma, quando foram iniciados e com qual indicação é fundamental para identificar possíveis cascatas de prescrição problemáticas”, afirmou a pesquisadora.
Acompanhamento farmacoterapêutico é fundamental
O estudo reforça a importância da revisão periódica da farmacoterapia, especialmente entre pessoas que utilizam múltiplos medicamentos.
Nesse processo, é importante considerar não apenas os medicamentos prescritos recentemente, mas também aqueles utilizados continuamente, além de medicamentos de venda livre e suplementos.
A identificação de uma possível cascata não significa que o medicamento inicialmente prescrito ou o segundo fármaco seja necessariamente inadequado. A decisão sobre iniciar, suspender ou substituir um medicamento deve levar em consideração as características e necessidades individuais de cada paciente.
Nesse contexto, o farmacêutico tem papel fundamental na promoção do uso seguro e racional de medicamentos, contribuindo para a identificação de possíveis problemas relacionados à farmacoterapia, orientação do paciente e comunicação com os demais profissionais da equipe de saúde.
Importante: medicamentos não devem ser interrompidos, substituídos ou utilizados de forma diferente da prescrita sem orientação de um profissional de saúde.

