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AAS infantil: entenda por que o medicamento deixou de ser recomendado para febre e gripe em crianças

Muito utilizado no passado, o ácido acetilsalicílico de 100 mg passou a ter seu uso pediátrico restrito devido à associação com a Síndrome de Reye, uma condição rara, mas potencialmente fatal.

Durante décadas, o ácido acetilsalicílico (AAS) de 100 mg, popularmente conhecido como AAS infantil, esteve presente na rotina de muitas famílias brasileiras. Utilizado para aliviar dores e febre em crianças, o medicamento também ficou conhecido pelo sabor agradável, especialmente nas versões com aroma de morango.

Apesar da popularidade, o avanço das pesquisas científicas trouxe alertas importantes sobre os riscos do uso do AAS na infância, principalmente durante infecções virais. A identificação de sua associação com a Síndrome de Reye levou a mudanças nas recomendações de uso e à adoção de medidas de segurança pelas autoridades sanitárias.

O que é a Síndrome de Reye?

A Síndrome de Reye é uma doença rara, grave e potencialmente fatal, que acomete principalmente crianças e adolescentes. A condição provoca alterações no funcionamento do fígado e do cérebro e pode evoluir rapidamente, exigindo atendimento médico de emergência.

Estudos identificaram uma associação entre o uso de medicamentos à base de salicilatos, como o AAS, durante infecções virais, especialmente gripe (influenza) e catapora (varicela), e o desenvolvimento da síndrome.

Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Vômitos persistentes;

  • Irritabilidade e alterações de comportamento;

  • Inquietação e confusão mental;

  • Sonolência e redução do nível de consciência;

  • Comprometimento cerebral, que pode evoluir para edema cerebral.

Os sintomas podem surgir durante a infecção viral ou no período de recuperação.

Diante desses riscos, autoridades de saúde passaram a desaconselhar o uso de ácido acetilsalicílico em crianças e adolescentes com determinadas infecções virais. Nos Estados Unidos, os primeiros alertas oficiais foram publicados em 1982.

O que mudou no Brasil?

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) adotou medidas para ampliar a segurança no uso pediátrico do ácido acetilsalicílico.

Em abril de 2001, a Agência determinou que medicamentos pediátricos à base da substância apresentassem advertências nas embalagens sobre o risco de Síndrome de Reye.

As empresas fabricantes receberam prazo para adequar os rótulos e os produtos disponíveis no mercado. A orientação passou a alertar que crianças e adolescentes não deveriam utilizar o medicamento para sintomas gripais ou catapora sem avaliação médica prévia.

Em 2003, a Anvisa reforçou a obrigatoriedade dessas advertências nas bulas de diferentes apresentações do medicamento.

As medidas contribuíram para ampliar a informação sobre os riscos da automedicação e reforçar a necessidade de acompanhamento profissional no tratamento de crianças.

O AAS infantil ainda é vendido?

Sim. O ácido acetilsalicílico de 100 mg continua disponível nas farmácias brasileiras. Entretanto, a apresentação de baixa dosagem não significa que o medicamento seja seguro para o tratamento de qualquer sintoma infantil.

Atualmente, o AAS não é recomendado como opção habitual para aliviar febre ou dores associadas a infecções virais em crianças e adolescentes.

Na pediatria, seu uso pode ser indicado em situações clínicas específicas, mediante avaliação e prescrição médica, quando os benefícios esperados superam os riscos. Entre essas situações estão determinadas doenças cardiovasculares e inflamatórias que exigem acompanhamento especializado.

Mesmo as apresentações com sabores agradáveis e características tradicionalmente associadas ao público infantil exigem atenção às contraindicações e advertências presentes na bula.

A importância da orientação farmacêutica

A história do AAS infantil demonstra como o conhecimento científico pode transformar as recomendações de uso de um medicamento ao longo do tempo.

Nesse contexto, o farmacêutico desempenha um papel fundamental na prevenção da automedicação e na orientação de pais e responsáveis.

Durante o atendimento, o profissional pode identificar situações que exigem avaliação médica, esclarecer dúvidas sobre os riscos do ácido acetilsalicílico e orientar quanto ao uso seguro de medicamentos para o alívio de sintomas, respeitando as particularidades de cada paciente.

Também é importante reforçar que a apresentação infantil, a baixa dosagem ou o sabor agradável de um medicamento não garantem sua segurança para crianças.

O uso racional de medicamentos depende de informações atualizadas, avaliação individualizada e acompanhamento profissional, especialmente quando se trata da saúde infantil.

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